Páginas

Páginas

Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

Olha a seta!

            


            Observo no trânsito e fico tiririca da vida, por alguns absurdos praticados por certos motoristas, que desconhecem, por exemplo, o momento de se utilizar a seta, essa alavanca grudada na coluna de direção dos veículos. Acredito que seja mais por descuido, desleixo, desatenção. Porém existem alguns “pilotos” por aí, que nem sabem da existência dela e acabam provocando acidentes e complicando a vida de outros usuários da via pública.

            O meu amigo Galeguinho, entregador do Mercadinho do João Abóbora, sabe muito bem o que é isso. Já levou uma fechada de um cara, numa caminhonete branca, tudo porque o da possante não deu a seta. Sobrou pro pobre do Galeguinho, que além de ter sua bicicleta danificada, ainda perdeu os mamões, peras, maçãs e mangas, que entregaria para a dona Matilde da Frutaria.  

            Como pedestre que sou, também ciclista e motorista, me deparo com essa geringonça todos os dias. Quem quiser conferir, é só ficar numa esquina dessas aí, na espreita e começar testemunhar as ocorrências. Além da bendita da seta, você vai constatar outras barbaridades, principalmente aqueles que falam ao celular, quando estão dirigindo, passam em alta velocidade, em desrespeito às regras de trânsito.

            Pensava que essas barbaridades aconteciam somente aqui na terrinha, mas não. Pode-se dizer que se trata de uma barbeiragem nacional, o que é profundamente lamentável.

            E o Galeguinho teve ajuda do seu patrão e, também da Dona Matilde, para os consertos necessários na sua bicicleta, para que a história terminasse bem, com esse gesto de solidariedade.

O craque Cubuzinho

No rádio exerço inúmeras funções, entre elas o de narrador esportivo. É algo apaixonante. Estar ali, empunhando o microfone e acompanhando de perto os lances, os mais inusitados possíveis é de uma magia incrível. O narrador não pode perder o lance e tem que contar com a memória para guardar nomes de jogadores e envolvidos no espetáculo.
O objetivo é fazer chegar até o ouvinte de casa ou presente ao estádio, a narração fiel, contando a posição em que os lances ocorrem, dentro de uma cadência e velocidade adequadas e a dose certa de emoção.
O ritmo é determinante na qualidade narrativa e essa observância levará ao profissional a ter credibilidade e, logicamente, audiência. O negócio é construir para o torcedor, a imagem do acontecimento, desde os lances mornos como a cobrança de um tiro de meta ou lateral até aos mais agudos, quando a velocidade ganha mais ênfase, uma jogada mais importante, até a iminência de um lance extremo em que possa redundar no grito sonoro e culminante de um “gooooool”.
Essas narrações tiveram início há muito tempo, na minha era infanto-juvenil. Sem a emissora de verdade, lá estava eu com a “latinha” na mão a transmitir uma partida de futebol, numa rádio imaginária. Era o começo de um sonho e a vontade de realiza-lo.
Faz bastante tempo desde aquela minha primeira narração esportiva. A audiência era total, daquela meia dúzia de torcedores que se acotovelavam para presenciar verdadeiras pugnas, que se travavam entre os jogadores de futebol de "botão", na saudosa rua Barão do Rio Branco.
Nada de amplificadores, microfones, fios ou fones. Era ali: frente a frente com os "ouvintes", soltando a voz, acompanhando dribles e passes e, claro, o melhor do jogo, o grito de "gooooool".
Embora gostasse mais de narrar e organizar os campeonatos, também tinha uma certa intimidade com a "tocadeira" e entrava na disputa, enfrentando adversários reconhecidamente difíceis e praticamente imbatíveis, como meu irmão Didi. Com nome (Ademir) e apelido de craque, o mano dava trabalho, sem estar imune às zebras, como é próprio do futebol (de botão), claro.
Um dos astros do meu time era o "Cubuzinho". Um atleta-botão, afeito à jogadas mirabolantes, cujo forte era cobrir o goleiro adversário, prevalecendo-se de seu "biotipo". Não como hoje, quando os botões dos jogos são iguais, em tamanho, cor e estilo, os de antigamente eram diversificados, o que propiciava ao dono do time, armar o seu esquema tático de acordo com as características "físicas" deles, geralmente com os grandes na defesa, os pequenos e velozes no meio e no ataque e, os gênios, como Cubuzinho, em qualquer lugar.
Ele era arredondado, como um minústico "Morro do Pião", o que lhe dava um status de excelente cobrador de falta. Era dos chamados "craques" inegociáveis e talvez, quem sabe, orgulhoso de sua condição de "atleta" numa mesa de futebol, tendo um destino diferente daquele que normalmente teria ao estar pregado ou costurado em algum vestido, camisola ou outra peça qualquer da indumentária.
Cubuzinho era o verdadeiro destaque, craque artilheiro como Pelé, Romário, Ronaldo Fenômeno ou Messi. Era o terror das defesas inimigas, aquele que fazia a diferença na mesa, jogando em casa ou no terreno adversário. Era o “jogador” que não tinha medo de cara feia. Enfim, era o “cara”.
Assim, ele fez sucesso na "mídia", tomando parte de uma diversão que era encarada com seriedade, em que cada um queria mostrar o máximo de desempenho.

Reveillon de luto

A chuva que caíra durante todo o dia resolvera fazer uma pausa ao cair da tarde daquele primeiro dia do ano, para que o caixão descesse vagarosamente à cova fria e úmida. O sol, em luto, não se tornou testemunha e as nuvens escurecidas pactuavam com o momento de dor, emoldurando aquele quadro insólito.
Estouro de rojões, restos da noite do réveillon ainda se faziam ouvir pelos bairros vizinhos ao campo da última morada, contrastando com o cenário fúnebre, em que se ouviam soluços sufocados, lamentos repetidos, pela perda brusca do ente querido.
Consternados, os familiares e amigos mais próximos fitavam pela última vez o corpo inerte no caixão, cada vez mais distante, no seio da terra.
Difícil neste momento aceitar a dura realidade da morte, ainda mais da forma em que ocorrera. Há poucos dias, ainda com saúde, o nosso amigo demonstrava o seu doce estilo de vida, com muito trabalho e muita alegria também.
Era um batalhador e rodava quilômetros e quilômetros na dura tarefa de vendedor, dos bons, diga-se de passagem. Conhecedor profundo da atividade, zelava pelos seus clientes, que se tornavam cativos, pois eram bem atendidos. Era um professor no tocante a conhecer a fundo os produtos que oferecia, fornecendo todas as informações necessárias, fator que facilitava o fechamento dos negócios. Tudo com extremo bom humor. Com isto, espalhou o seu nome para todos os recantos.
O bom humor era a sua marca também nos dias de folga. Mais ainda, pois estava rodeado de amigos. Aí, esbanjava a sua alegria contagiante, o alto astral de um verdadeiro embaixador do riso, personagem central nos encontros festivos, organizador e animador das festas. Era o “cara”. Já viu aquele sujeito “bacana”, boa gente. Era ele. Amigo leal, solidário ao extremo, pronto para todos os momentos, super atencioso.
Era um craque nos conhecimentos gerais. Inteirava-se pelo rádio, TV, revistas, jornais e internet, acompanhando todos os assuntos de política, futebol, música, tudo, tudo. Torcedor de futebol, tinha lá o seu clube, cuja bandeira o acompanhou naquele momento final.
Um gosto musical variado, com ênfase para o samba, a música brasileira (e ele sabia o nome dos intérpretes e dos autores) e cantava junto, com jeito e ginga, lembrando os bons tempos de Pompeia.
Um ouvinte assíduo do futebol pelo rádio, um comentarista dos esquemas táticos dos treinadores e da atuação dos futebolistas. Dava a sua opinião e ouvia a dos outros, na forma como deve ser o bate-papo, a discussão sadia, a comunicação em geral.
Nas suas folgas era um bom de “garfo”, até mesmo compensando a alimentação irregular durante as suas viagens, com a correria do dia-a-dia, no atendimento aos clientes, de cidade em cidade, com horários desencontrados, ou até mesmo nas convenções de empresas que representava. Depois de se alimentar, não faltavam elogios à cozinheira. Era sempre grato. Do seu jeito. Fazia parte.
Fazia planos e parecia estar próximo o momento de iniciar uma nova etapa de vida, ao lado de sua amada, uma companheira de excelentes princípios e leal ao extremo, que completaria a sua felicidade. Dia que não chegou e não chegará, pela grave enfermidade que o levou em poucos dias.
Lá estava a cova funda e fria. Neste instante, a terra despejada cobria todo o caixão. Era a finalização daquele ato dramático, melancólico, real.
Os pingos de chuva voltaram como a verter lágrimas. O sol permanecia escondido e as nuvens, ainda escurecidas continuavam a dar o tom de tristeza naquele primeiro dia do ano.
E o estouro de rojões, restos da noite do réveillon ainda se faziam ouvir pelos bairros vizinhos, como a dizer que “a vida continua...” e contrastavam com o cenário fúnebre, de soluços sufocados, pela perda brusca do ente querido. Muito querido!!!.

Tomara que chova

“Tomara que chova...
Três dias sem parar”.

Entoava a chusma de moleques na carroceria do caminhão do “Seu” Adão, que nos guiava até a Fazenda dos Caixetas, nos esperados e desejados passeios domingueiros, como que um presente a todos nós, por mais uma semana de estudos. Nem sei se merecíamos. Porém era o que pensávamos naqueles anos. Um passeio bucólico que, com certeza, toda criança gostaria de fazer.

De qualquer forma o caminhão seguia o seu caminho, vencendo a distância, que não era tão exagerada assim, tudo dentro do esperado e desejado, menos o tal de:

“Tomara que chova...
Três dias sem parar”.

Aquela cantiga me deixava aflito, mas nada que pudesse provocar um grau maior de preocupação, mesmo porque estava longe de ser uma patologia, ainda mais para um menino saudável de calças curtas. Era medo mesmo, medo da chuva, que nem estava caindo e só prenunciava. Só isto e nada mais.

E lá ia o caminhão, com valentia descendo e subindo morro, levantando poeira, aquele barulhão gostoso do motor, aceitando as marchas que eram exigidas para dobrar mais um espigão. Uma reduzida na curva, um embalo maior na descida, primeira, segunda, terceira, quarta, quinta... e lá ia o caminhão, morro abaixo, a nos mostrar a exuberância da natureza, hoje tão maltratada “burramente” por todos nós.

“Seu” Adão sempre foi craque no volante e, com segurança, conduzia aquela caravana entusiasmada e cantante. Nenhum temor quanto a isto. Afinal em vários anos como motorista não poderia receber nenhum comentário que desabonasse sua conduta. O homem era “fera”!

Até aí tudo bem, menos aquela cantoria a martelar nos meus tímpanos:

“Tomara que chova...
Três dias sem parar.”

E não choveu. Nem um pingo. Até pelo contrário: foi sol o dia todo. O passeio foi excelente, o arroz doce estava muito gostoso e o medo da chuva, que não era exclusividade minha, passou.

Minha avó Rita também era assim. Medrosa quando se tratava de chuva. Rezava um terço inteirinho nas chuvas grossas. Acendia velas e mais velas durante as tempestades. Invocava Santa Bárbara para protegê-la dos relâmpagos. Implorava por São Jorge nas trovoadas e, para a ventaria que queria derrubar tudo, clamava por todos os anjos e santos e se metia no fundo do guarda-roupa.

Sousa com "S"

- Sousa com “S”, ok???

- Tudo bem, Sousa com “S” – escreveu a funcionária do cartório, encarregada de lavrar a escritura de um lote adquirido pelo Sr. Ariovaldo de Sousa, com “S”.

É uma confusão esse negócio de nomes, não é mesmo? Há Sousa com “S”, Souza com “Z”. E quando se fala em Luís? É a mesma pergunta: com S ou com Z. Queiros também é assim, com S ou com Z. E por aí vai, a lista é enorme.

Também sofro com isto pois tenho um Sousa com S. Verificando a minha certidão de nascimento o meu Sousa é com S mesmo. Interessante que o do meu pai está grafado com Z e o da minha mãe com S. Deveria haver um cuidado maior por parte das pessoas do Cartório Civil, para orientar sobre estes detalhes. Seria plausível, como diria o meu amigo Valdir.

Com o Ariovaldo a coisa não fica só aí não. Na certidão de nascimento, na carteira de identidade e no CPF é Sousa com S, mas na carteira de motorista e no título de eleitor é com Z. Olha só que lástima!

Aí tem que ficar falando, Sousa com S, Souza com Z, porque se não falar o atendente – qualquer um – vai colocar do jeito que lhe aprouver.


Assisti a uma palestra sobre a arbitragem do Sr. Márcio Rezende de Freitas, hoje aposentado do apito e comentarista de televisão. Antes de abordar sobre qualquer matéria a respeito da dura missão de apitar uma partida de futebol, foi logo falando da grafia de seu sobrenome. Ele fazia questão do Z no Rezende. É... porque aí também tem Resende com S, como tem Aloísio e Aluísio, Adalto e Adauto e por aí vai...

- Quero lembrar a todos vocês, antes de mais nada, que o meu Rezende é com Z, dizia ele em alto e bom som, naquela oportunidade.


Pois bem, agora o Ariovaldo tem que ficar aí soletrando o seu nome para não ver o seu Sousa escrito errado.

Isto quando não aparece alguém menos avisado para complicar mais ainda a situação. E este fato ocorreu mesmo, com o nosso personagem, que estava viajando e precisou parar para dormir num hotel à beira da rodovia.

- Boa noite, chegou cumprimentando, o Ariovaldo.

- Boa noite - respondeu sonolento o recepcionista ou vigia, não sei bem.

E aí seguiu aquele papo costumeiro, quando se chega a um hotel – o valor do pernoite, até que horas é o café da manhã, um choro prá ganhar um desconto... –

- Deixe eu registrar o nome do Senhor, aqui no livro de registros – falou o atendente.

- É Ariovaldo de Sousa. Sousa com S, viu? – falou o viajante.

- A-ri-o-val-do – começou a escrever o rapaz, acertando.

- De Sousa, com S – insistiu o que chegara.

- De Sou-za – concluiu e errou o que atendia.

Porque naquele momento ele escreveu Sousa com S, o “S” inicial e lascou um Z onde não deveria. Que lástima!

Morreu Farina!

- Farina Morreu.

- De morte morrida ou de morte matada?

- Morte matada.

- Coitado!

- Cadê ele?

- Tá lá, encostado na porteira...

A conversa marido e mulher se passava naquela manhã seca de inverno, na cozinha da fazenda. Uma área considerável, com o seu tradicional fogão de lenha, umas lingüiças penduradas, em processo de defumação, uma mesa de pura madeira, oito cadeiras postas, três de cada lado maior e duas nas extremidades. Era o ambiente daquele diálogo matinal.

Farina nascera numa véspera de natal e seu nome veio do personagem de Paulo Goulart da novela Esperança, em que interpretava o vilão Farina.

- Ele vai fazer muita falta! - dizia o “seu” Juca.

- O tanto que ele nos ajudou!..., exclamava a “dona” Judite.

Farina tinha quatro irmãos e viveu pelo menos um terço da vida, levando-se em conta a média geral. Tinha um bom porte, seu crescimento foi dentro da normalidade, alimentava-se bem, comendo de tudo, saúde perfeita e demonstrava ser amigo de todos, pelas brincadeiras que empreendia e muita capacidade de trabalho. Preguiça não era com ele. Não havia domingo, feriado e férias que pudessem parar as suas atividades. E olha, que ele não reclamava de nada.

Farina era um grande ajudante do “seu” Juca, encaminhando as vacas leiteiras para o curral em todas as manhãs e, na hora certa, apartava o gado, sem falar nos seus serviços como excelente companhia para o casal de aposentados, que se sentia em perfeita segurança com ele por perto.

- Ele não fez nada prá ter um fim tão triste! - lamentava “dona” Judite.

- No mundo de hoje acontece de tudo - entristecia o “seu” Juca, de muitos janeiros e experiência ao longo dos seus quase oitenta anos.


Estirado junto à velha porteira, naquela estradinha poeirenta, estava Farina. Nenhuma pista do autor ou autores dos disparos. Ninguém podia fazer mais nada.

Farina tinha uma mistura de raças, próxima a um Fila, que são cães de guarda e boiadeiro e deixou o pai Sadan e os irmãos Toquinho, Rabicó, Trabanda e Mirinda.

Encantar o cliente

Palhares entrou numa loja para comprar uma coisa à-toa e já não foi gostando do atendimento ruim, ou melhor, do não-atendimento. Isto mesmo, ele simplesmente não era atendido e ficava junto ao balcão a ver navios.

Quem é que não passou por uma situação como esta? Acho que todos nós, um dia, tivemos este desprazer.

Logo com Palhares, cara legal, amistoso, amigão, bom relacionamento com vizinhos a ponto de ser o síndico permanente do condomínio em que reside, pelo seu senso de organização e de uma paciência de Jó para tolerar todos os chiliques de Da. Carminha, moradora que reclamava de tudo e de um tal de Chupeta, intolerável com o som a todo pique em seu Fusca 74, considerando-se dono do mundo. Por isso, além dele, ninguém se considerava em condições de assumir este cargo espinhoso.

E o Palhares não era atendido. Ficou ali vendo passar os atendentes e esperando um olhar de um deles para arriscar um “bom dia”, que fosse, para iniciar a comunicação. Seria pelo menos o início de uma compra desejada. Mas a impossibilidade deste contato persistia à medida em que o desfile de funcionários continuava, acudindo um ou outro cliente e outros que batiam um papo animado, comentando sobre os resultados do futebol, o posicionamento dos times no campeonato, sobre a pesquisa eleitoral e o capítulo da noite anterior da novela e tantos outros assuntos do momento, menos para aquele.

Palhares se lembrou do curso de vendas que havia feito com a professora Norma no ano anterior, para aumentar os seus conhecimentos e logicamente aplicá-los com a devida ênfase nas suas atividades profissionais. Ouviu coisas que já sabia de cor e salteado, “a satisfação do cliente”, “encantar o cliente”, “atendimento personalizado”, tudo muito bonito no papel, porém distante de alguns despreparados que vão para o mercado de trabalho como verdadeiros pamonhas. Pelo menos ali, naquele pequeno universo, era a dura realidade a ser constatada.

Claro que, justo como era, Palhares sabia que nem todos os balconistas eram assim, sonsos, até pelo contrário, muitos jogavam no time dos competentes e gabaritados, que sabiam “encantar”, aplicando todas as boas técnicas de venda. Ainda bem.

Agora o nosso amigo, que continuava sem ser atendido, começava a se imaginar como um homem invisível e veio à sua mente o livro “The Invisible Man”, obra-prima de Herbert George Wells, que havia lido há poucos dias. Nestas horas pensamos em tudo, não é verdade? Seria ele um homem invisível?

Imaginou também se um fato como este tivesse ocorrendo com a Dona Carminha, moradora que reclamava de tudo no condomínio. Era briga na certa, pois ela jamais engoliria aquela situação. Partiria, com certeza, para as vias de fato, quem sabe ensejando um boletim de ocorrência.

Cansado da espera inútil, era hora de se tomar uma providência, colocando um ponto final naquele fato desagradável e constrangedor, quem sabe esbravejando, soltando o verbo, deitando falação, porém nada disto combinava com a personalidade e jeito de ser do Palhares.

Preferiu adquirir a conexão para a mangueira de jardim num outro lugar.

Aplaudido de pé

Você já viu aquele cara bom de garfo, o comilão de fato e de direito, que chega e vai logo chamando a atenção, a personificação da própria máquina de devorar, com apetite canino, que receberia com certeza a medalha de ouro em todos os concursos ou aquele trofeuzão dourado em forma de garfo, de faca ou de colher, sei lá, algo que poderia simbolizar a sua “insaciabilidade”. Prá resumir: o homem era um estrago e uma ameaça iminente aos lucros de donos de restaurante.

E o seu prato preferido? Todos, isto mesmo, todas as carnes, todas as massas, enfim, todos os itens inseridos ou não nos cardápios. Do “couvert” à sobremesa, Geraldão não dispensava “nadica” de nada.

Geraldão era o apelido que definia bem o tamanho da “criança”, um autêntico guarda-roupa dez portas, com maleiro e tudo o mais. Cabelo comprido, amarrado atrás, como um rabinho, barba feita, bigode chamativo e aquela barriga em forma de barril, que mostrava perfeitamente a sua competência para a comilança.

Pastel de carne ou queijo, com muita pimenta, empadinha, coxinha, pizzas, cachorro-quente, assados, cozidos, grelhados e pode acrescentar o que você quiser, pois era com ele mesmo.

E olha que o Cesinha da Pompéia, um amigo meu, não seria páreo prá ele, apesar de ser bastante competente nesta área gastronômica.

Geraldão era, vamos dizer, o mais esperado da noite, pela sua fama de apetite de leão, e também a sua simpatia, jeito de moço bom. Se fosse candidato poderia utilizar o slogan: “Vote no Geraldão, o candidato de bom coração”. Mas ele não se envolvia nestas coisas de política, pois não tinha nenhuma vocação para enrolar os outros com promessas vazias, o que fazem muitos caçadores de votos, com exceções, claro. Queria mesmo era trabalhar, cumprir as obrigações como cidadão e comer bem, e como!

E olha que faltou pouco para ele competir em Nova York, no famoso torneio de comer cachorros-quentes de Coney Island. Foi lá que o japonês Takeru “Tsunami” Kobayashi, hexacampeão do torneio, acabou se desentendendo com a organização da competição, após ver quebrada a sua hegemonia, sendo derrotado pelo americano Joey Chestnut, que devorou 68 hot dog, contra 64,5 deglutidos pelo nipônico.

Geraldão bem que poderia ter encarado esses gringos, mas esbarrou na burocracia e acabou se atrasando na inscrição. Um concorrente a menos para Chestnut, que acabou levando o caneco. Quem sabe no ano que vem, a história seja diferente.

Falando nisto, olha quem está chegando...

É o Geraldão que vem com tudo, apetite tradicional, com o seu jeitão característico, chamando a atenção de uma casa cheia, cumprimentando a todos pelo caminho até a mesa 58, especialmente reservada, bem no centro daquele ambiente bem arrumado e freqüentado.
- O de sempre – ia dizendo logo para um dos garçons e eles já sabiam de cor e salteado os procedimentos a serem colocados em prática a partir daquele momento, para a satisfação do cliente.

E o cliente satisfeito estava agora nas etapas finais de mais um momento “animal”. Quem o viu lá naquela noite foi o meu amigo Cesinha da Pompéia que, ainda comentou:

- O homem é realmente insuperável... poderia muito bem ser aplaudido de pé...

O nome dela é Hypotenusa

- O nome dela é Hypotenusa... Hypotenusa Ferreira – disse o declarante ao funcionário do cartório de registro civil.

- Hypotenusa não pode – respondeu de cara, o funcionário – pois este não é nome permitido para se colocar em uma pessoa.

- Mas eu quero é este e pronto. Já tá tudo decidido lá em casa com a patroa e este vai ser o nome da nenenzinha – aumentou a voz o pai.

- Meu senhor. Temos que ter o cuidado para não permitir que nomes assim, sabe como?, diferentes, sejam dados às pessoas – tentou explicar o rapaz, ainda com paciência.

- Pois agora o problema tá criado. Vai ser Hypotenusa, com y e não tem esta de nhem-nhem-nhem-nhem – esbravejou o declarante, o Sr. Ferreira.

- Não posso fazer nada – sacramentou o atendente – sentindo que a parada não era para ele resolver.

- O Senhor não acha que este nome não vai ser ruim prá menina? – meteu o nariz onde não é chamado, um cara de bigode preto e sobrancelhas grisalhas.

- Sabe como é? Logo surge aquele papo de: ‘você é aquela do teorema de Pitágoras’, ‘ah! Quero ser um ângulo reto prá te ver de frente’ ou ‘queria ser um dos catetos para estar ao seu lado’, sei não! Ninguém merece – disse o cara do bigode, que fiquei sabendo depois ser professor de geometria no Colégio Estadual.

Quando a conversa estava nesta matemática toda, eis que chega o titular do Cartório, um senhor baixo, troncudo, que não fazia muito esforço para ser simpático. Manja o cara? De poucas palavras, quase monossilábico, que atendia pelo nome de Guido e que não admitia ser chamado pelo apelido ‘Abobrão’. Ninguém ousava soltar um palavrão destes na presença dele. Na ausência, podia, inclusive no Cartório, pois os próprios funcionários morriam de achar graça.

- Sr. Guido – falou com respeito o funcionário – este Senhor aqui quer registrar a sua filha com um nome que não pode ser aceito.

- Humm – economizou o troncudo – com ar de titular, que na verdade ele era e se preparando para ouvir e ouviu com todas as sílabas separadas:

- Hy-po-te-nu-sa –

- Esse não pode – decidiu Sr. Guido, com cara de ‘abobrão’.

- Vai ser esse mesmo e pronto – esbravejou o pai, que emendou – Porque que Agrícola Beterraba e Bananéia Oliveira podem, que eu conheço estas duas!!! – argumentou.

Aqui coloco uma pausa para, de certa forma, aceitar a argumentação daquele pai, embora não concorde que nomes estrambóticos assim sejam colocados em pessoas. Mas que existem, existem. Entrei no Google e achei um montes deles, como:

Bizzarro Assada, Chevrolet da Silva Ford, Colapso Cardíaco da Silva, Esparadrapo Clemente, Estácio Ponta Fina, Faraó do Egito Souza, Farmácio Lopes, Rolando Escadabaixo, Horinando Pedrosa, Boaventura Torrada, Gravitolina Pereira, Primeira Delícia Figueiredo, Pelumendia Loureiro, Presolpina Furtado, Dosolina Piroca, e o ‘campeoníssimo’ Um Dois Três de Oliveira Quatro.

Dito isto, voltemos ao Cartório pois a situação não estava para acabar em pizza, como em Brasília, até pelo contrário.

- Então tá!!! Hypotenusa não pode, né? Até Bucetildes eu já vi... Hypotenusa não pode... Tá bem... Vou procurar os meus direitos – gritou Hidráulico Ferreira, que se retirava ‘tiririca’ de raiva como quem perde um round mas não perde a luta.

Sexta-feira, 13 de agosto

Alvarino trabalhou enquanto teve forças e se aposentou com um minguado salário, que regrado, juntava-se a de outros escassos recursos familiares para fazer frente às despesas de casa. Uma vida simples, que não permitia luxo, mas um entrosado ambiente familiar. Era o que importava.

Era gente simples e que honrava os seus compromissos. Ao Senhor Alvarino, conhecido como ‘Seu’ Alvarino, ficava o encargo de pagar as contas de água e luz e, claro, comprar os remedinhos de uso diário, e tudo aquilo consumia os seus proventos oficiais do ‘INPS’ não sobrando prá mais nada, a não ser um joguinho aqui e outro ali, uma rifa, coisas assim.

Ele gostava mesmo era de jogar um truquinho na praça do Mercado, só prá passar o tempo. Era comum vê-lo sob a sombra de uma velha árvore, com amigos de verdade e até alguns conhecidos meus como o Neguinho dos Frangos, o Galeguinho Tricolor, e o Taquinho ‘Isprivitado’ – era assim que todos o conheciam, não posso fazer nada!

Em casa, colava as nádegas num banquinho de madeira e ficava ali olhando o tempo, fazendo as suas previsões meteorológicas, aparando as difíceis unhas encravadas do pé com o canivete, proseando com um e outro, recontando os casos de mil novecentos e cafunga, principalmente para a netinha Felisbina, que além de feliz no nome, era assim também no dia-a-dia. Foi ela que escolheu e adquiriu para o vovô querido, o bilhete da rifa que correria à noite na Praça.

Voltemos ao nosso protagonista:

Defeitos ele não tinha, a não ser que superstição seja um defeito. Isto era com ele mesmo, supersticioso ao extremo. Não havia outro igual a ele. Só apeava da cama com o pé direito no chão. Passar debaixo de uma escada, nem pensar. E se o gato preto cruzasse à sua frente, estava complicada a situação. Quebrar espelho, sinal de sete anos de azar, e por aí vai... Vai ser sismado lá nos Trinta Paus! Ele não gostava nem de pensar nestas coisas, que o deixavam acabrunhado.

Não andava sem a medalhinha da Virgem Maria, Mãe protetora, a quem prestava uma devoção muito grande e era A que o encorajava a suportar aqueles seus temores.

‘Seu’ Alvarino jogava no time daqueles que não encaravam de jeito nenhum o número 13, contrariando o Zagalo. Achava que casa, apartamento ou final de placa de carro com este número, era sinal de mau agouro.

E o dia 13, então?... Era um Deus nos acuda. Com certeza, poderia ser retirado de seu calendário.

E olha que não falei da sexta-feira, 13, que aumentava ainda mais a sua dose de preocupação.

É... e prá piorar a situação tivemos este ano a sexta-feira, 13, de agosto, prá provocar de vez uma queda no índice “down Jones” do Alvarino, que passava a invocar todos os Santos, numa reza forte e constante como a guiá-lo naquele dia aziago, que demorava a passar, mais que uma corrida de tartarugas.

Mas, como todo o dia tem o seu fim, inclusive o 13, este também caminhava para o seu desfecho, para alívio total do ‘Seu’ Alvarino, que neste momento, começava a ouvir uma voz, bem ao longe e que, a cada segundo tornava-se mais inteligível, à medida em que Felisbina, numa correria desenfreada, se aproximava trazendo uma notícia:

- Vovô, Vovô!!! O Senhor ganhou... o senhor ganhou...

Alguns segundos depois, com mais calma, a netinha completou a informação: O ‘seu’ Alvarino foi o felizardo no sorteio nas barraquinhas da Igreja São José Operário.

Com isto o pernil assado já estava garantido para o jantar, graças ao número 13, retirado da cumbuca.

Adolfo repórter

Já viu aquele cara assíduo ao trabalho, pontualidade britânica, um "gentleman" no convívio diário com os colegas? Este era o Adolfo Figueiredo, repórter esforçado, gente boa, pau prá toda obra, que fazia de tudo que lhe mandavam fazer e mais um pouco, sempre com a mesma disposição, mais animado que funcionário no seu primeiro dia de emprego.

- Deixa comigo, Sr. Tancredo, vou até a Prefeitura prá fazer a reportagem. Dizia o nosso protagonista, num grave de locutor de estúdio, que contrastava com o seu tamanho econômico.

Este era o nosso baixinho de voz grossa, obediente ao Sr. Tancredo e à sua mãe Edviges. Para bem comparar, diria que ele era mais obediente que segundo piloto da Ferrari na Fórmula 1.

A sua mãe, a Edviges, era um doce de pessoa e vivia lendo curiosidades sobre o significado dos nomes, um passatempo favorito e estava ficando craque nisto:

- Adolfo significa “lobo nobre” e pode ser interpretado como “guerreiro forte”, dizia a dona Edviges, que vem do germânico e significa “mulher guerreira”.

Porém...

Sempre há um porém... o Adolfo cometia alguns atropelamentos à língua pátria ou, em outros casos, falta de entendimento de alguns vocábulos. Deslizes que impedia, por exemplo, que se concedesse a ele o conceito máximo. Seria distração, talvez, para ser mais condescendente e, em consideração ao seu lado de moço bom. Pode ser...

Nada que não pudesse ser corrigido e, neste sentido, o patrão estava sempre cobrando dele, maior atenção para não cometer estes equívocos, recomendando sempre, uma boa leitura, o livro que fosse, que, de certa forma, pudesse agregar os conhecimentos ao nosso “gente boa”.

- A entrada ao teatro logo mais é gratuíta. Errava o Baixinho ao cravar o acento tônico no “i”.

- O evento da Associação dos Aposentados é beneficiente. Outra falta de eficiência do repórter.

Como se vê, os pecados não foram tão cabeludos assim. De qualquer forma, o comunicador deve estar sempre atento e não confundir “tomada de porco com focinho elétrico”, ou melhor, “tomada elétrica com focinho de porco” – (eu não disse para ficar sempre atento?)

Mas...

Sempre há um mas... Todo o repórter tem o seu dia aziago.

E assim, Adolfo Figueiredo, repórter esforçado, gente boa, pau prá toda obra, mais animado que funcionário no seu primeiro dia de emprego, voz grave, estatura econômica, mais obediente que segundo piloto da Ferrari na Fórmula 1, empregado do Sr. Tancredo, filho de Dona Edviges, também teve o seu dia.

Foi num evento em que se inaugurava o busto de uma pessoa muito querida na região e com uma larga folha de serviços prestados à coletividade, uma frase das antigas, para se adequar à figura de muitos janeiros que ali estava presente, em corpo, alma e espírito, o Sr. Salustiano, que significa “saudável”, na pesquisa de dona Edviges, nome que representava bem o homenageado, apesar da idade.

Depois de se posicionar ao lado do homem do busto e do busto do homem, Adolfo preparou o vozeirão, soltou esta pergunta e se lascou:

- Sr. Salustiano, como o senhor se sente diante desta homenagem póstuma?

Ao que o Sr. Salustiano, com agudeza de espírito, respondeu:

- MORTO.

Vuvuzelas, Jabulani e o Polvo

Toniquinho Potoca era daqueles que conversavam pelos cotovelos, impondo as suas opiniões sem direito a resposta. Não acreditava, por exemplo, que o homem um dia fincou o pé na lua e pronto. Esta era a verdade dele e ninguém se atrevia dizer o contrário, a não ser aqueles que não conheciam de perto o Toniquinho Potoca.

Era de inventar moda e metido a saber de tudo. Futebol então, nem se fala. Era com ele mesmo. Dizia que foi craque de bola, pontinha esperto, cheio de velocidade e difícil de ser marcado, seja lá por quem fosse. Furava qualquer bloqueio e se afirmava contra todos os esquemas. Era danado o homem. Contava que havia recebido um convite prá jogar no Atlético. Só faltava dizer que cobrava escanteio e ia prá área para fazer, de cabeça, um gol.

Era ele que estava agora na Feirinha do Zé das Couves contando potoca, daí o seu apelido, em meio a tomates, batatinhas, cebolas, pepinos, alfaces, melancias e outros artigos de feira, sem contar a couve, do “seu” Zé, é claro, este vegetal muito rico em cálcio, fósforo e ferro.

Toniquinho, que não desligava o microfone, estava ali apregoando a sua tese de complô na Copa do Mundo da África do Sul, assunto que chateava a dona Creuza, esposa e única empregada naquele estabelecimento comercial, que não entendia nada de futebol e só se interessava pelas suas novelas.

- “Foi tudo uma armação!”

Dizia o nosso comentarista, argumentando que tudo fora feito para mudar resultados através de tramóias muito bem preparadas, justamente para avacalhar com as chamadas seleções de mais poder técnico. Neste momento reparei no “Seu” Zé das Couves um ar de reprovação, enquanto a dona Creuza, que não estava nem aí prá aquele assunto, se dirigia para o lado de fora da feirinha para descascar uma mandioca para o Dr. Gilson, que se mostrava bastante apressado.

Sem que ninguém ousasse a fazer a indagação que fosse, Potoca começou a defender o seu ponto de vista:

- “Isto é coisa das vuvuzelas, da Jabulani e do tal de Polvo”.

Estas palavrinhas ecoaram e tomaram conta daquele ambiente, deixando em segundo plano o vozeirão do Dr. Gilson a indagar o quanto teria que pagar pela mandioca. O que todos queriam mesmo saber era este papo furado ou não do nosso proseador.

Na cabeça do Toniquinho, as vuvuzelas barulhentas, sopradas a plenos pulmões funcionavam apenas para impedir que as instruções do treinador, no banco de reservas, fossem ouvidas pelos jogadores em campo.

Quanto à Jabulani, bola traiçoeira que resolvia mudar a sua trajetória no meio do caminho, era o indicativo claro, segundo Potoca, para deixar todos os jogadores com o mesmo nível de dificuldade no seu domínio e, consequentemente, um nivelamento por baixo entre eles.

Só faltava falar do vidente polvo Paul, morador do aquário alemão, que previa todos os resultados, até quem levaria o caneco. Potoca foi enfático:

- “Aí... foi o lado PISCOLÓGICO...”

Disse com quase todas as letras, mas certo de estar coberto de razão, no emprego da palavra e no seu significado, o nosso estimado sabichão.

Nisto, a Dona Creuza, que não estava nem aí para o assunto, resmungou:

- “Isso parece coisa do demônio!...”

Já o “seu” Zé das Couves, aferia o peso das frutas e verduras que eu havia selecionado e se preparava para a parte mais importante para ele, botar a mão no dinheirinho sagrado. Neste cenário toca o celular...

Era a patroa pedindo mais uma lata de palpito para a salada do almoço.